Fui te encontrar com um sorriso tímido nos lábios e um picolé de chocolate branco na mão. Pulei no teu pescoço e te dei um abraço inesperado, você, sem saber o que fazer, retribuiu meio igual um robô abraçando. Não sei se as chaves do carro estavam de fato tremendo na tua mão, ou se foi só impressão. Não sei se foi exagero reparar em como teu olhar tentava se esquivar do meu. Você ficou atrás de mim e eu gentilmente pedi pra que mudasse de lugar e me olhasse enquanto falava, você consentiu, mas continuou olhando pra baixo. Trocamos algumas palavras, os dois sem saber o que fazer, e logo você foi embora.
Eu fiquei tão feliz aquele dia, que nem me importei com seu jeito torto de retribuir abraços e não olhar pra frente. Depois teve outras vezes, como aquele dia em que fugimos na madrugada sem rumo pela cidade, sussurrando junto com as músicas, tentando quebrar o silêncio e a timidez, tentando superar o desconforto da nossa companhia. Lembro de você parando bem em frente a janela dos meus pais, e dos mil abraços que eu te dei. Lembro d'eu falando que você não sabia abraçar decentemente.
Lembro de cada coisa besta que esses dias me vi chorando com uma música sertaneja, no meio de uma festa, só porque você cantava ela pra mim. Eu lembro de ir buscar teu carro contigo e depois você me deixar em casa. Lembro de falar contigo enquanto você viajava e citar "Querido John". "A lua está cheia, algo que me faz pensar em você. ... e onde estou, esta lua será sempre do mesmo tamanho da sua… do outro lado do mundo."
Eu lembro do aperto que senti quando você me contou a história do seu avô e eu quis te dar carinho e chorar com você. Me lembro do primeiro sorriso que você me deu. Me lembro dos tapas que você me dava na academia e do quanto ria da minha cara por ser desastrada. Lembro dos conselhos, como quando você disse que "Não adianta fazer o certo pra quem é errado." e me mandou "Big girls don't cry". Ou quando eu tava triste e você me mandou vídeos de bebês foca. Eu lembro sobretudo das nossas implicâncias, do nosso orgulho e de todo o resto. Lembro do nosso primeiro abraço decente, bêbados, você sentado num banquinho e eu me despedindo pra ir embora da festa com outro, você me disse: "não quer mesmo que eu te leve?", e eu respondi que não precisava. Depositei todo meu amor naquele abraço, e desde então ele é a minha lembrança mais viva de nós. Às vezes eu acho uma música nova pra nossa "playlist do amor" e lembro que não posso mais te mandar. Sabe, acho que eu vivi mais dentro da minha própria mente, do que na nossa realidade, de fato. Porque eu realmente via significado em cada ato, cada detalhe, cada letra, de cada música que desajeitadamente você cantava pra mim. Em cada brincadeira que você fazia só pra me ver sorrindo. Eu sei que agora nada mais importa, mas eu só precisava dizer que... sinto sua falta todos os dias.

