segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Outrora me vi refletindo (como de costume) sobre o eterno fio invisível, que por alguma força inexplicável, nos une. É como se, entre as dez mil pessoas que Bukowski diz que eu amaria mais se conhecesse, nenhuma fosse ter os teus olhos taciturnos. É como se, aqui ou do outro lado do mundo, só você pudesse me desnudar e me ler. Mesmo que não possas tocar minha língua, a que te fala, ou a que te beija, és o único que a compreende. Como na poesia que te li na noite passada, "mesmo no silêncio, e com o silêncio, dialogamos".
Eu sou teu violão quebrado e desafinado que só você sabe manusear (de modo que não te machuque e emita algum som). Sou a cruz que você carrega nos ombros e também a que está guardada na tua gaveta de lembranças. Você, é o rastro que deixo em todas as direções que resolvo seguir. Eu te despejo nas ruas de todos os lugares. Nas sílabas de todos os versos. No sal de todas as lágrimas. No aperto de todos os abraços.
Você é o meu transbordar que, até em tempos de secura, nunca se evapora por completo.
Então, eu levanto a questão:
- Será que amor é isso? Ser refém de alguém mesmo que sutilmente nas entrelinhas de tudo o que faz?
E alguém me responde:
- Tipo afta, né. Se tu não passar a língua, não dói.

Teu amor é meu escafandro 
em algum mar distante
mergulho sem destino
nas tuas
cristalinas
obscuras
águas

Meu coração mora numa redoma de vidro 
em algum canto da tua estante
entreguei-o por desatino
às tuas
frouxas
apertadas
mãos

Nossos corpos se conflitam
em algum espaço distante
e se enlaçam, clandestinos
no nosso
arfante
sereno
suor

Montauk


                                                                                                                                                                                                                                                                                                       


Já faz tempo que não me visto de prosa, mas seja em poema, sussurro, grito ou melodia, todas as minhas sílabas serão tuas. Tuas, pois enviei toda a parcela de amor que me foi disponibilizado à um só destinatário. Fui sendo tua credora, e você me pagou sempre com o encanto da subjetividade. Fui sendo tua, e tua, me fiz. Milhares de versos remetidos e a promessa constante de que a literatura não estragaria nossas melhores horas de amor. Somos hipérbole, pois dos paradoxos e antíteses eu já me cansei. Em utopia, sempre te traguei pra dentro do âmago como quem aproveita o último cigarro, mas eu me engasguei. Em realidade, continuo te tragando e te dissolvendo em saliva enquanto invades suavemente meu pulmão, aprendi a fumar, de você eu não me engasgo mais. Quando você vira as costas não enxergo nenhuma publicidade reversa, como nas embalagens estampadas com pés atrofiados e previsões de impotência sexual. Você não vem com aviso prévio. Mas mesmo que o desastre fosse iminente, eu ainda assim te tragaria e te traria pra dentro de mim, como quem se alivia e não teme a morte. Não poderia ser de outra maneira, pois, é fato que suportei o tempo, a distância, o colapso entre o mundo sensível e o inteligível, e continuo viva. Continuo te mantendo vivo, também. Não tenho rotas alternativas. É na tua barba falha, nos teus braços sem veias saltadas, nos teus olhos que já devem estar gastos de tanto serem alvos pros meus versos, nas curvas que contornam teu sorriso, no teu canto desafinado, na tua rispidez, nas tuas exclamações diárias de que sou louca, e no teu abraço (seja ele desajeitado ou não), que eu firmei o meu Montauk. E Montauk nunca se desfaz.

Você desagua em mim e eu oceano



                     desculpa se te cubro com poesias diárias 
e te encosto os pés gelados no meio da noite
perdoa a mania de transformar banalidades em crises existenciais
entende meu amor que não segue as vertentes do otimismo
e não proferirá nunca, nem jamais, ou pra sempre
mas seguirá invicto, sem adentrar o falso sentir
pois não ouvirias nunca dos meus lábios
dos meus dedos
ou dos meus olhos
sentimentos inexistentes e vazios
nadas confiante pelo meu mar de palavras
e descansas, paciente, nos meus rochedos de silêncio
com a certeza de que
otimista ou catastrófico
meu amor tem profundidade suficiente
pra te afogar
se posso prometer algo
é que não morrerás de sede
sentado nas bordas
observando meu fluxo escoar 
se juntando à outras águas

pois és tu o oceano
no qual sempre irei
desaguar