sábado, 2 de maio de 2015

segunda nota de adeus


não adianta postergar o fim
e seguir cortando os pés
nos próprios cacos
com as mãos já cansadas demais
pra recolhê-los do chão
o amor não basta
e de todas as verdades
essa é a que mais desespera
faz aproximadamente 900 dias
que eu digo adeus
mas a alma se recusa
eu sempre vou embora só com o corpo
e eu tenho medo de que
quando os escafandristas vierem
revirar sua casa seu quarto e suas coisas
me achem ainda perdida em algum canto
e decifrem nas minhas palavras
tudo que mesmo em voz, você não entende
e cheguem à conclusão
que: all my love was down
in a frozen ground
fica então com a minha alma
corpo você arruma qualquer um
mais simples, menos afobado
e com o meu, eu sigo
pois corpo não perdura
e não exige cuidado
a plenitude há de vir
por outros meios
teu sangue é azul, blue, melancólico
e você continua caminhando tal como Carlos, sempre vertical
enquanto eu me debruço no teu peito com meu sangue vermelho gritante
que pulsa nas veias saltadas de todos os homens que mandei embora por te amar demais
eu sou a destruição de Hiroshima e Nagasaki
sou os cômodos alagados das casas atingidas por todos os Tsunamis da Indonésia
você é a calmaria que surge ao fim de tudo
a tranquilidade dos pais quando avistam o filho que pensavam estar morto
as flores que dão vida aos solos outrora devastados
e eu te cubro com meus destroços, amorteço a sua queda, te protejo de mim
teus olhos me pulverizam cada centímetro do corpo
e eu só me preocupo com a culpa que te transfiro por meio dos meus versos
eu deveria ser menos mental e mais corpórea, você sabe
mas eu poderia escoar minha libido como água na boca de todos os sedentos
e ainda assim me sentiria seca
pois é você que me exuma o corpo em putrefação e o transforma novamente em matéria viva
e eu continuo sendo essa catástrofe em forma feminina
que esmurra tuas paredes como um vento que antecede tempestades
quando queria ser apenas uma brisa suave tocando o seu rosto
serenamente
num fim de tarde de outono
és a anáfora oculta
dos meus versos
e te carrego também no peito
em eterna repetição
em notas, letras e símbolos
que se agregam
ao resto da minha vida

apareces na minha poesia
como a terra de Hilda Hilst
passarinho de Manoel de Barros
diminutivo de Vinicius de Moraes
bebida de Bukowski
primavera de Neruda
verme de Augusto dos Anjos
epifania de Clarice

quisera eu me livrar
dessa angustiante
monomania
mas são os astros
do teu teto
as constelações
da tua pele
que compõem

o meu universo
povoado de silêncio
te recordo sempre
em vozes melancólicas
e em gritos roucos acompanhados
pela guitarra do jimmy page
em cada gole do vinho chileno
que eu não sei abrir
em cada toque do seu cobertor
nas minhas pernas

te recordo na dissonância
da melodia do nosso silêncio
e no nosso tato
que quase nos trasmuta
pra dentro um do outro

os ossos do meu quadril
recordam suas mãos firmes
me pedindo pra ficar
e moldar mais um pouco
teu corpo de homem

a brisa da montanha mais alta
te faz recordar
de mim?

porque eu recordaria de nós
quando, olhando pra baixo
a vertigem me remetesse
à sensação de liberdade
do nosso abraço

e os pássaros cantassem
em forma de anúncio
uma canção dizendo
que apesar do desacorde

não será tão breve
a nossa queda

primeira nota de adeus

não mais ousarei dispor da metafísica para divagar sobre porquês inúteis
preciso de um exorcismo que me arranque da alma
a mania aristotélica de questionar o amor
onde uma palavra nunca é só uma palavra
onde um olhar nunca é só um olhar
onde o adeus nunca é permanente
porque, afinal, o que é adeus?
do que ele é feito?
de beijos na testa
abraços reconfortantes
ou de choros abafados no travesseiro
e um silêncio estratosférico
que deixa todos os outros sons insuportáveis?
é chegada a hora de partir
quando o coração, numa redoma de vidro
guardada no teu porta-malas
está perto de se partir em milhões de pedaços
enquanto você corre à 180km/h
e sussurra: hello darkness, my old friend
i've come to talk with you again
e eu não tenho medo de nunca mais me reconstruir
só tenho medo de que os cacos te atinjam
e você não consiga voltar pra casa
e se banhar, das minhas lágrimas que
abastecem teu chuveiro
e sair pra buscar alguém importante
enquanto eu fico inerte sobre a cama
e sussurro: your love will be
safe with me