Outrora me vi refletindo (como de costume) sobre o eterno fio invisível, que por alguma força inexplicável, nos une. É como se, entre as dez mil pessoas que Bukowski diz que eu amaria mais se conhecesse, nenhuma fosse ter os teus olhos taciturnos. É como se, aqui ou do outro lado do mundo, só você pudesse me desnudar e me ler. Mesmo que não possas tocar minha língua, a que te fala, ou a que te beija, és o único que a compreende. Como na poesia que te li na noite passada, "mesmo no silêncio, e com o silêncio, dialogamos".
Eu sou teu violão quebrado e desafinado que só você sabe manusear (de modo que não te machuque e emita algum som). Sou a cruz que você carrega nos ombros e também a que está guardada na tua gaveta de lembranças. Você, é o rastro que deixo em todas as direções que resolvo seguir. Eu te despejo nas ruas de todos os lugares. Nas sílabas de todos os versos. No sal de todas as lágrimas. No aperto de todos os abraços.
Você é o meu transbordar que, até em tempos de secura, nunca se evapora por completo.
Então, eu levanto a questão:
- Será que amor é isso? Ser refém de alguém mesmo que sutilmente nas entrelinhas de tudo o que faz?
E alguém me responde:
- Tipo afta, né. Se tu não passar a língua, não dói.
Já faz tempo que não me visto de prosa, mas seja em poema, sussurro, grito ou melodia, todas as minhas sílabas serão tuas. Tuas, pois enviei toda a parcela de amor que me foi disponibilizado à um só destinatário. Fui sendo tua credora, e você me pagou sempre com o encanto da subjetividade. Fui sendo tua, e tua, me fiz. Milhares de versos remetidos e a promessa constante de que a literatura não estragaria nossas melhores horas de amor. Somos hipérbole, pois dos paradoxos e antíteses eu já me cansei. Em utopia, sempre te traguei pra dentro do âmago como quem aproveita o último cigarro, mas eu me engasguei. Em realidade, continuo te tragando e te dissolvendo em saliva enquanto invades suavemente meu pulmão, aprendi a fumar, de você eu não me engasgo mais. Quando você vira as costas não enxergo nenhuma publicidade reversa, como nas embalagens estampadas com pés atrofiados e previsões de impotência sexual. Você não vem com aviso prévio. Mas mesmo que o desastre fosse iminente, eu ainda assim te tragaria e te traria pra dentro de mim, como quem se alivia e não teme a morte. Não poderia ser de outra maneira, pois, é fato que suportei o tempo, a distância, o colapso entre o mundo sensível e o inteligível, e continuo viva. Continuo te mantendo vivo, também. Não tenho rotas alternativas. É na tua barba falha, nos teus braços sem veias saltadas, nos teus olhos que já devem estar gastos de tanto serem alvos pros meus versos, nas curvas que contornam teu sorriso, no teu canto desafinado, na tua rispidez, nas tuas exclamações diárias de que sou louca, e no teu abraço (seja ele desajeitado ou não), que eu firmei o meu Montauk. E Montauk nunca se desfaz.
és, dentro de mim um nó górdio inexorável que ninguém desata nem por engano
meu coração teu cárcere perpétuo túmulo que guarda meu martírio antes revestido de diamante contenta-se agora com as paredes de ósmio
te nega alforria e continua impenetrável mas já não brilha, nem tem valor apenas convalesce no berço do conformismo de seu irrefutável desamor
te guarda na penumbra do silêncio e te aceita como lembrança de pedra que molda o peito ensaguentado pois não consegue descansar em paz
espada nenhuma será afiada o bastante pra te amputar de mim pois essa ilusão mortiça é que me tira a sensatez atrofia os membros, agoniza mas nunca aceita o fato
1 ano se passa e você aparece na porta da minha casa transformando todas minhas utopias em realidade e esfregando na minha cara esses teus olhos negros esféricos, agora cheios de culpa por terem se desvencilhado de mim. Eu, que nunca sei fugir do domínio deles, tiro o pijama, limpo as lágrimas do rosto vermelho e tento controlar as mãos trêmulas pra entrar no teu carro sorrindo e fingindo um equilíbrio que já perdi há muito tempo. Te abraço. E como é bom sentir seu cheiro real e não só mais quando fecho os olhos e sinto por uns minutos pela imaginação. Você me diz que tá aqui porque sente saudade. Não se acha merecedor, mas pede desculpa. Eu não me importo com o tempo e nem com nada porque o fato de poder te ver já me deixa feliz. A playlist que toca ainda é a mesma. Meu amor também. Você diz que se importa, que me observa de longe, que sente falta. Eu, desacreditada, penso estar num dos meus delírios, mas sorrio e apenas sou eu, a mesma de sempre, que quer te cuidar e te proteger até de você mesmo e da tua mente que te maltrata. No mais, agradeço por me lembrar como é ser feliz, mesmo que só por uns minutos.
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Se eu te contasse você não acreditaria, às vezes simplesmente sinto teu cheiro por aí. O cheiro do amaciante da tua roupa. O cheiro do teu carro. O cheiro da tua respiração. Do teu silêncio. Da tua distância.
Eu ainda perco horas lembrando da tua voz e do teu violão desafinados tentando me fazer sorrir. O tempo que nos juntou foi tão pouco e parece demais agora que preciso me desprender. Às vezes me dá uma agonia e uma sensação de que você tá triste, precisando de mim, e eu não posso ajudar. Fico te procurando nos versos do Drummond e sempre te acho. Só queria saber o que fazer quando vídeos de bebês foca não são o suficiente...
Se eu te contasse você não acreditaria, mas eu sinto a tua falta mais que tudo no mundo.
Há tempos eu não gastava meus verbos e figuras de linguagem num texto sobre você. Depois que tu saiu da minha vida eu aprendi a fazer poesia e me convenci que não faria nenhuma pra ti pois tu dedicou as mais bonitas pra quem nem sabe o que é sentir o âmago afagado por palavras. Na verdade eu não te faço poesia porque mesmo não te poetizando eu não consigo te apagar, imagina se. Eu teria muitos temas pra compor meus versos estrofes e rimas, te faria os sonetos mais bonitos, de modo modernista e não parnasiano, pois o sentimento é muito e a preocupação com a estética é pouca. Entretanto, esqueço a métrica e a forma e decido te deixar só em mim, sem te mostrar pra ninguém, e te mostrando pra todo mundo ao mesmo tempo. Incrível como qualquer movimento mais brusco revela minha alma ainda esfolada. Eu ainda procuro teus olhos tristes nos olhos de todos os rostos que acho por aí. Eu ainda procuro alguém que sorria pouco. Alguém que cante desafinadamente comigo. Alguém que tenha medo de me abraçar. Eu acho resquícios teus perdidos por aí mas nunca é o suficiente. Eu me apaixono por outras manias, por outros trejeitos, por outras vozes, mas nada se compara com as tuas peculiaridades. Eu me lembro de cada uma delas, desde gostar de comer maçã até ouvir Tchaikovsky antes de dormir. Eu não sei se gosto de ti como algo físico ou só da sua essência de antes misturada ao meu platonismo. Só sei que dói, e minha vontade é ir chorar você pra você. Assim como eu chorava outras coisas e sempre recebia conselhos, poemas e músicas reconfortantes. Os dias longe já não me doem, mas eu ainda sinto vontade de saber cada detalhe do seu dia, de te ver lembrar de mim com algum filme, de você fugindo, sendo monossilábico e evasivo. Eu sinto a tua falta em tudo, mesmo sem saber se tu existe mesmo ou se eu só personifiquei um amor que nunca existiu.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Nada serei, senão um reflexo da frustração de não ter sido. Nada sentirei, senão remorso pelos planos irrealizados, os afagos não dados. Ah! Como doerá o peso de ver os melhores perfumes sendo apreciados aquém da minha presença. Ficarei imersa e inebriada num cheiro fantasioso que só eu reconheço, pois não me permiti sentir o aroma de algo real. Só me restará a lembrança desconfigurada, e totalmente nula, das minhas utopias. Me contentarei com a sensação de saber que posso caminhar, mas não darei um passo sequer. Repousarei meus olhos cansados em algum horizonte azul, e farei planos pra um futuro, que na verdade já virou até passado, e continua abstrato. Numa manhã qualquer, saltarei da cama, e num insight poderei visualizar o irreversível tempo que perdi. E nada será pior que acordar de um sono platônico e bater a cabeça no concreto. Irei me descompor, me desbotar no mofo das minhas memórias, e remoer a insatisfação de uma existência inválida.
(Mas, o futuro ainda é distante como um borrão, falho como um piano velho que toca sempre a mesma nota. Cabe a mim o foco, a melodia, e o dedilhado. A canção da minha vida não merece ser tão fúnebre.)
sábado, 15 de junho de 2013
"Você precisava de amor, mas não o tipo de amor que a maioria das pessoas costumava dar e no qual se consumiam. Queria apenas encontrar um jeito de me afastar de todo mundo. Mas não havia lugar para ir. Suicídio? Jesus Cristo, apenas mais trabalho. Sentia que o ideal era poder dormir por uns cinco anos, mas isso eles não permitiriam." (Charles Bukowski)
nem toda a psicologia explica
a paixão que a agonia existencial
desperta em mim.
desejo desvendar o fio de loucura
que sobrepõe suas pupilas
cavar fundo esse vazio
que ronda tua retina,
e conhecer o mistério
protegido por tuas pálpebras
ao se fecharem.
menino,
não sei se gosto mais de ti
ou dos teus olhos.
Fui te encontrar com um sorriso tímido nos lábios e um picolé de chocolate branco na mão. Pulei no teu pescoço e te dei um abraço inesperado, você, sem saber o que fazer, retribuiu meio igual um robô abraçando. Não sei se as chaves do carro estavam de fato tremendo na tua mão, ou se foi só impressão. Não sei se foi exagero reparar em como teu olhar tentava se esquivar do meu. Você ficou atrás de mim e eu gentilmente pedi pra que mudasse de lugar e me olhasse enquanto falava, você consentiu, mas continuou olhando pra baixo. Trocamos algumas palavras, os dois sem saber o que fazer, e logo você foi embora.
Eu fiquei tão feliz aquele dia, que nem me importei com seu jeito torto de retribuir abraços e não olhar pra frente. Depois teve outras vezes, como aquele dia em que fugimos na madrugada sem rumo pela cidade, sussurrando junto com as músicas, tentando quebrar o silêncio e a timidez, tentando superar o desconforto da nossa companhia. Lembro de você parando bem em frente a janela dos meus pais, e dos mil abraços que eu te dei. Lembro d'eu falando que você não sabia abraçar decentemente.
Lembro de cada coisa besta que esses dias me vi chorando com uma música sertaneja, no meio de uma festa, só porque você cantava ela pra mim. Eu lembro de ir buscar teu carro contigo e depois você me deixar em casa. Lembro de falar contigo enquanto você viajava e citar "Querido John". "A lua está cheia, algo que me faz pensar em você. ... e onde estou, esta lua será sempre do mesmo tamanho da sua… do outro lado do mundo."
Eu lembro do aperto que senti quando você me contou a história do seu avô e eu quis te dar carinho e chorar com você. Me lembro do primeiro sorriso que você me deu. Me lembro dos tapas que você me dava na academia e do quanto ria da minha cara por ser desastrada. Lembro dos conselhos, como quando você disse que "Não adianta fazer o certo pra quem é errado." e me mandou "Big girls don't cry". Ou quando eu tava triste e você me mandou vídeos de bebês foca. Eu lembro sobretudo das nossas implicâncias, do nosso orgulho e de todo o resto. Lembro do nosso primeiro abraço decente, bêbados, você sentado num banquinho e eu me despedindo pra ir embora da festa com outro, você me disse: "não quer mesmo que eu te leve?", e eu respondi que não precisava. Depositei todo meu amor naquele abraço, e desde então ele é a minha lembrança mais viva de nós. Às vezes eu acho uma música nova pra nossa "playlist do amor" e lembro que não posso mais te mandar. Sabe, acho que eu vivi mais dentro da minha própria mente, do que na nossa realidade, de fato. Porque eu realmente via significado em cada ato, cada detalhe, cada letra, de cada música que desajeitadamente você cantava pra mim. Em cada brincadeira que você fazia só pra me ver sorrindo. Eu sei que agora nada mais importa, mas eu só precisava dizer que... sinto sua falta todos os dias.
domingo, 12 de maio de 2013
No redemoinho da vida, você foi o vento que me levou contigo e esqueceu de me devolver pro mundo.
Vida, esse punhado de rimas pobres saltitando sobre nossos olhos. E não haveria mesmo outro jeito de viver, senão rimando amor com dor, ou com o que for. Não fosse essas passagens (bruscas ou quase imperceptíveis), a vida seria quase como um mar sem ondas. Quem já se viu afundando no saudosismo sabe a força que o corpo exige para subir até a margem e dar uma respiradinha. Mas acontece que, ou aprendes à lidar com as lembranças, ou te afoga nelas. Nenhum texto-clichê-de-auto-ajuda está obstinado a mudar teus conceitos e te ensinar a viver. Nenhum sentimento, filosofia, deus, psicólogo, mantra, orixá, amuleto da sorte têm a função de guiar teus passos. Viver é uma questão de saber filtrar o que importa do que só ocupa espaço. Viver é não saber pra onde está indo, mas não desistir de encontrar um caminho. E essas não são palavras de quem já aprendeu, ou de quem ao menos acha que sabe algo sobre a vida. São, sobretudo, palavras de quem continua tentando.
terça-feira, 7 de maio de 2013
Devo ter nascido com algum tipo de Karma imutável. Nunca consigo me desviar das rasteiras da vida. Caio, levanto, e saio desfilando com um sorriso no rosto como se ninguém fosse capaz de perceber a minha cara toda ensanguentada. Corro até a mesma maldita porta e esmurro-a desesperadamente, mesmo sabendo que nunca vai abrir. Depois, varro os estilhaços do coração que ficou ao chão pra debaixo do tapete, maquio novamente um sorriso, e vou embora. Amanhã eu volto. Você não deve ter me ouvido chamar. Eu devo amar um deficiente auditivo.
A desesperança nunca chega, e é a ausência dela que me angustia. Essa utopia anda corroendo minha razão como uma célula cancerígena. Você funciona como a transcriptase reversa e faz o câncer se espalhar por todo o resto. Não adianta gritar o mais alto possível que vou desistir, que estou fatigada, que não aguento mais, porque sabemos que não é verdade. Eu aguento, eu insisto, eu posso suportar.
Você não repara no que eu digo, e muito menos no que não digo. Mas eu devo amar um deficiente visual.
Às vezes eu queria que você dissesse com todas as letras que essa esperança não vai me levar à lugar algum que não seja à loucura. Queria que me cuspisse palavras ácidas e realistas. Mas você nunca diz nada. Eu devo mesmo amar um deficiente vocal. E mesmo que todas essas disfunções só aconteçam comigo, eu continuo amando e esperando. Até amanhã.
domingo, 21 de abril de 2013
queria ter algum dom
algum subterfúgio que me fizesse transcender
ao mesmo tempo que trouxesse distração
eu poderia cantar
curar doenças
ou só tocar violão
eu poderia drummondear por aí
mas minha poesia
também é meio fora do tom
sei lá
só queria mesmo parar de perseverar
nos mesmos velhos erros
Lembrei-me de passar aqui, no lugar onde os sentimentos se deixam existir livremente, pra tentar -mais uma vez-, encontrar uma lógica. Sem parecer clichê, desesperada, louca de amor. Sem parecer prepotente, ciumenta, mesquinha. Só quero reforçar que o teu abraço desajeitado anda me fazendo falta. Quero dizer que mesmo parecendo tão perto, as curvas da nossa infinita highway tomaram rumos totalmente inversos. E mesmo depois de ter provado essa dor aguda que é te ver dando carinho pra outra pessoa, eu não consigo sentir raiva. Mesmo sentindo, não consigo sentir. Entende? É coisa passageira, que toma conta de mim por uns minutos e depois se reverte em tristeza. Eu tenho vontade te matar, perguntar que porra está fazendo com a tua vida e onde foi parar a tua inteligência. Mas tenho vontade também, de te implorar pra não ir embora nunca, mesmo que não esteja aqui de verdade. Mesmo que seja tudo utopia da minha mente paranoica que transforma tudo em poesia. Sei lá, benzinho (lembra quando eu te chamava assim?), "você mora mais em mim que na tua casa", o aluguel jamais foi pago e ainda assim eu não tenho coragem nenhuma pra te expulsar. Continua aqui então, até que meu coração consiga mudar de inquilino.
O que parecia palpável tornou-se apenas um feixe de luz distante, hora mais forte, hora tão ofuscado que mal consigo enxergar. Você colocou milhões de tijolos entre nossos caminhos e construiu um muro tão alto que já não posso alcançar. Todas as vezes em que tentei ultrapassá-lo, caí faltando pouco para chegar ao topo. E ninguém sequer percebeu as tantas fraturas que acumulei.
Eu realmente achei que daríamos certo. Usei toda lógica que me coube para tentar entender teus motivos, teus planos, tuas vontades. Mas você foge dos meus sentidos. Foge de todos os sentidos.
Mesmo que eu tenha desistido de insistir, eu ainda sinto falta das pequenas coisas. Sinto falta da sua insegurança e fragilidade, sinto falta da força que você faz pra esconder isso. Sinto falta das tuas contradições, dos teus medos, dos defeitos que só eu enxergo, e mesmo assim amo.
Do cheiro da tua roupa, da sua cara de sério, dos teus sorrisos espontâneos.
Deixo transparecer essa sensibilidade aqui, sabendo que nunca lerá esses versos que já se tornaram repetitivos e clichês. E se você lesse... será que saberia interpretar? Será que entenderia que mesmo estando com muita raiva, eu ainda perco tempo te dedicando palavras? Será que levaria em consideração ou só teria pena? Eu não quero mais procurar uma lógica pro que aconteceu/acontece com a gente. Isso me desgasta. Tudo bem. Quero te ver sempre feliz. Do meu jeito torto, do meu jeito paradoxal, eu te desejo mesmo as melhores coisas do mundo. Eu até tentaria pular o muro mais umas trezentas mil vezes, se você me pedisse.
Ela continua falando muito e não dizendo nada. Talvez assim consiga desviar a atenção dos sentimentos reais. Disfarça tristeza com euforia. Preenche o vazio com falsa alegria. E apenas sorri. Sorri e solta palavras aos quatro ventos pra que alguém acredite na realidade que ela inventa pra si mesma.
Insiste numa coisa (in)acabada apenas pra achar graça na vida. Não funciona.
Queria a pobre menina, apenas um ombro para se reclinar, e algumas carícias em seu cabelo. Queria apenas alguém que a aceitasse sendo assim mesmo, esse erro.
O batom vermelho em seus lábios não consegue forjar autoestima. E os olhos são mais tristes a cada dia.
Nem toda maquiagem consegue esconder.
A menina fala tanto, e o que queria dizer de fato mantém preso no íntimo da memória. Se pudesse gritaria seu silêncio, talvez assim alguém a compreendesse, ou você. Sim, você. Ela só quer que pare de procurar um sentido e ache algum junto com ela. Que ame os defeitos dela tanto quanto ela ama os teus. Tanto quanto ela ama tudo em você, mesmo tentando e tendo motivos para odiar.
Escrever na terceira pessoa não muda os fatos, tenho que aprender.
quarta-feira, 20 de março de 2013
O Amor, Meu Amor
Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.
Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.
E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.
E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.
Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.
Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.
E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.
E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.
Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.
Mia Couto, in "idades cidades divindades"
"(...) Você anda em zigue-zague, despista o coração, sufoca a dor e faz essas coisas de quem se perde toda hora. E o que eu faço? Fico te esperando no fim da estrada. Fico olhando seu caminho desequilibrado como se eu tivesse algum equilíbrio, te esperando no fim da linha e como se você fosse o "trem e eu a estação". Fico esperando para segurar teu coração que foge pela boca e dar carinho à dor que teima em dizer "não é nada". Você tropeça, me erra, cega o sentimento, pega um atalho, vai, volta, teima, manda embora, foge e depois se acanha no acostamento pensando que ninguém vê. E eu? Eu me deito para ser o teu acostamento."
Sou a favor do sofrimento, sabe. O vazio é uma dor que não informa onde está alojada. O sofrimento é tangível, dá pra ter noção da ferida, e calcular a recuperação pra tal estrago. E o vazio? É só um abismo de nada. Estou caindo sem ao menos saber de onde, em que, e quando o chão vai chegar.
Não sou uma pessoa que segue o modelo convencional, daquelas que quando se sentem deprimidas comem um pote de sorvete, meia dúzia de chocolates, e tudo bem. Na verdade não gosto de chocolate, e nem de sorvete. Eu nem ao menos me permito ficar triste com a solidão. Tento encará-la de forma otimista. "Melhor só do que mal acompanhada". Ultimamente ando me sentindo superior a todo mundo. Não por prepotência, porque realmente não tenho essa segurança toda. Mas sim pela babaquice exacerbada que me cerca. Pela mesquinharia que vomitam todos os dias e meus olhos são obrigados a ver. Me sinto alheia a toda essa situação. Como se eu vivesse num universo paralelo e fosse mera espectadora desse mundo frívolo com toda essa gente pedante. O problema é que eu não consigo mudar o canal, e por falta de opção, desligo a mim mesma. Me isolo de toda essa sujeira e saboreio o gosto amargo desse asco que sinto por todos. Isso é triste. É triste desprezar meus amigos, meus amores e todo o resto. É triste estar sozinha num mundo estranho onde as teorias são todas do caos. É triste conviver com os pensamentos e não ter ninguém pra compartilhar. É triste não acreditar em mais nada. Mas, tudo bem, vou superar. "Não preciso mais do que um filme ruim e alguma melodia amarga pra me sentir bem."
É como aquela música velha que nunca nos cansamos de ouvir... Nosso filme só se repete, e eu assisto incontáveis vezes com a esperança de que o final mude algum dia. Não muda.
Ontem uma amiga me disse sem dó nem piedade que esse amor está mais frio que os sentimentos dela. E olhe, ela tem um coração bem gelado. Cheguei à óbvia conclusão de que usar todas as figuras de linguagem possíveis para dar intensidade ao sentimento, não adianta. As palavras não podem carregar todo o resto nas costas. Não adianta poetizar um amor que não tem coragem nem pra existir. Não somos, nunca fomos, e seremos, algum dia? Não sei. Todas as certezas se esvaem como poeira entre meus dedos. Às vezes, me sinto tão próxima que chego a ouvir teus batimentos cardíacos a longa distância. Às vezes, me sinto tão distante que teu rosto não passa de um borrão em minha memória. Cansei do quase. Cansei de reciclar momentos bonitos pra transformá-los em versos bonitos. "Porque nada disso nunca valeu o risco."
Se fôssemos nos julgar matematicamente, seríamos um conjunto vazio. Sem solução.
Analisando fisicamente, somos iguais e opostos ao mesmo tempo. Por isso hora nos atraímos, e hora nos repelimos. Na poesia, nosso amor é o vácuo de algo tangível que nunca existiu. É julgado apenas por suposições e deduções que podem ou não ter nexo. Ora, poeticamente tudo é plausível, até o irreal. Mas até poetas se cansam de hiperbolizar sentimentos que já estão apagados.
Então, faz assim. Me encontra mesmo sem querer nas músicas, nos filmes, nas frases do Drummond, e na Estrela da Manhã, do Bandeira. Me encontra no teu carro cantando The Scientist mesmo que no meu lugar já esteja outra pessoa. Me encontra jogando videogame no teu quarto e implorando pra que me deixe vencer, mesmo que tua cama agora esteja vazia. Me encontra nas piadas que já não tem a mesma graça porque não me contou. Enquanto você me encontra, me perde e volta a me procurar, eu sigo me esforçando pra que não se esvaias de mim. Eu sigo remoendo tudo, intensificando tudo, desistindo e voltando a insistir. Sigo renovando o ciclo, sozinha com minhas palavras. Só não me peça pra não me afobar.
Essa paz de espírito não me pertence. Eu estou forjando-a pois não me resta outra opção. Viver sob dramas e amargura não faz mais parte dos meus planos. Mas de que os planos importam, não é?
Muitos foram sabotados pelo destino... E será que se tivessem de fato se concretizado, estaríamos no mesmo lugar hoje? Não sei.
Eu me pego vasculhando a memória e me deparando com uma lembrança mais bela que a outra. Daqueles dias em que a nossa implicância era puro charme, e não rancor.
Mas hoje tudo está tão vago. Sentimentos camuflados nas malditas entrelinhas. Cansei delas.
Cansei das tuas respostas evasivas, do mistério, da fuga.
Pode ser equívoco, mas eu sinto uma fagulha de sentimento em cada palavra. Sinto como se estivesses fugindo de si mesmo. Eu sei que sou um problema, talvez o maior. Mas sei que de qualquer forma, no fundo, gostas disso.
Se algum dia resolver voltar, admitir, relevar... estarei aqui pra te oferecer um abraço desajeitado.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
domingo, 10 de fevereiro de 2013
se espremessem meu âmago
dele não sairia nada
além de palavras desconexas
um silêncio ensurdecedor
e o vulto dos teus olhos amargos
se me vasculhassem a alma
nela não veriam nada
além do desejo infindo
dos meus lábios tocarem os teus
se mexessem nas quinquilharias que residem meu coração
não achariam nada além de sentimentos confusos
um universo paralelo em que você me acalenta sob teus braços
e posso sussurrar nos teus ouvidos
o amor que nunca admiti
As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho de eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.
Carlos Drummond de Andrade
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Minha cabeça trovoa
sob meu peito te trovo
e me ajoelho
destino canções pros teus olhos vermelhos
flores vermelhas, vênus, bônus
tudo o que me for possível
ou menos
(mais ou menos)
me entrego, ofereço
reverencio a tua beleza
física também
mas não só
não só
graças a Deus você existe
acho que eu teria um troço
se você dissesse que não tem negócio
te ergo com as mãos
sorrio mal
mal sorrio
meus olhos fechados te acossam
fora de órbita
descabelada
diva
súbita…
súbita…
seja meiga, seja objetiva
seja faca na manteiga
pressinto como você chega
ligeira
vasculhando a minha tralha
bagunçando a minha cabeça
metralhando na quinquilharia
que carrego comigo
(clipes, grampos, tônicos):
toda a dureza incrível do meu coração
feita em pedaços…
minha cabeça trovoa
sob teu peito eu encontro
a calmaria e o silêncio
no portão da tua casa no bairro
famílias assistem tevê
(eu não)
às 8 da noite
eu fumo um marlboro na rua como todo mundo e como você
eu sei
quer dizer
eu acho que sei…
eu acho que sei…
vou sossegado e assobio
e é porque eu confio
em teu carinho
mesmo que ele venha num tapa
e caminho a pé pelas ruas da Lapa
(logo cedo, vapor… acredita?)
a fuligem me ofusca
a friagem me cutuca
nascer do sol visto da Vila Ipojuca
o aço fino da navalha me faz a barba
o aço frio do metrô
o halo fino da tua presença
sozinha na padoca em Santa Cecília
no meio da tarde
soluça, quer dizer, relembra
batucando com as unhas coloridas
na borda de um copo de cerveja
resmunga quando vê
que ganha chicletes de troco
lebrando que um dia eu falei
"sabe, você tá tão chique
meio freak, anos 70
fique
fica comigo
se você for embora eu vou virar mendigo
eu não sirvo pra nada
não vou ser teu amigo
fique
fica comigo…"
minha cabeça trovoa
sob teu manto me entrego
ao desafio de te dar um beijo
entender o teu desejo
me atirar pros teus peitos
meu amor é imenso
maior do que penso
é denso
espessa nuvem de incenso de perfume intenso
e o simples ato de cheirar-te
me cheira a arte
me leva a Marte
a qualquer parte
a parte que ativa a química
química…
ignora a mímica
e a educação física
só se abastece de mágica
explode uma garrafa térmica
por sobre as mesas de fórmica
de um salão de cerâmica
onde soem os cânticos
convicção monogâmica
deslocamento atômico
para um instante único
em que o poema mais lírico
se mostre a coisa mais lógica
e se abraçar com força descomunal
até que os braços queiram arrebentar
toda a defesa que hoje possa existir
e por acaso queira nos afastar
esse momento tão pequeno e gentil
e a beleza que ele pode abrigar
querida nunca mais se deixe esquecer
onde nasce e mora todo o amor.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Ligação cármica é o que temos.
Eu, você, nós.
Que não se desatam.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Não tenho bens de acontecimentos. O que não sei fazer desconto nas palavras. Entesouro frases. Por exemplo: - Imagens são palavras que nos faltaram. - Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem. - Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser. Ai frases de pensar! Pensar é uma pedreira. Estou sendo. Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo). Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos. Outras de palavras. Poetas e tontos se compõem com palavras. — Manoel de Barros